Pesquisa identifica apelo emocional em 65% dos conteúdos que circulam em grupos políticos no WhatsApp

Antes de uma informação virar opinião, ela precisa conseguir atenção. E, no WhatsApp, essa disputa passa cada vez mais pelas emoções. É o que mostra a pesquisa “Caiu no Zap”, realizada pelo Aláfia Lab em parceria com o Laboratório de Pesquisa em Comunicação, Culturas Políticas e Economia da Colaboração (coLAB/UFF). 

Entre 1.104 mensagens analisadas em grupos políticos de esquerda e direita, 65% apresentam apelo emocional, recurso que pode mobilizar sentimentos como raiva, medo, indignação e desprezo e acelerar a circulação de conteúdos. O apelo emocional é um potencial indicativo de desinformação.

Além do teor emocional, aparecem também, como potencial de desinformação, o enviesamento (33,8%), com o uso de títulos sensacionalistas, por exemplo,  e o maniqueísmo (33%), quando há divisão simplista e uso de termos dicotômicos, como “mal” e “bem”. Em seguida, vem o personalismo (27,2%), as incorreções (17,3%) e a vilanização (17,3%). Também foram identificados negacionismo (12,5%), conteúdos fora de contexto (6,4%), uso indevido de estatísticas (5,6%) e marcadores de urgência (3,6%).

O dado mais expressivo é que o apelo emocional não aparece isoladamente. Quando uma mensagem apresenta uma função específica, como influenciar eleições, gerar intolerância ou produzir pânico, a presença do apelo emocional sobe para entre 77,4% e 93,3%. Na função de radicalismo, chega a 93,3%; na de pânico, a 88,1%.

O levantamento acompanhou 35 grupos públicos de discussão política no WhatsApp entre maio e julho de 2026, no período que antecede as eleições. Ao todo, foram capturadas 45.942 mensagens, sendo 92,5% originadas em grupos de direita e 7,5% em grupos de esquerda. Para a análise qualitativa, os pesquisadores trabalharam com uma amostra de 1.104 mensagens, composta por 592 conteúdos de grupos de direita e 512 de grupos de esquerda.

O estudo parte de uma compreensão de desinformação que vai além da ideia de uma informação simplesmente falsa. A pesquisa chama atenção para uma “zona cinzenta”. 

Para a coordenadora de pesquisa do Aláfia Lab, Vivian Peron, o estudo busca entender este fenômeno e suas complexidades. “Fatos reais, descontextualizações, enquadramentos enviesados, falsas estatísticas e apelos emocionais se entrelaçam. Por isso, o desafio não é classificar cada mensagem como verdadeira ou falsa, mas compreender o que compõe essa zona cinzenta: quais elementos potencialmente desinformativos estão presentes e que funções essas mensagens cumprem, desde a formação de opinião até a incitação à intolerância”, explica. 

Redes sociais são a principal fonte dos conteúdos compartilhados no WhatsApp

A pesquisa mostra que os grupos políticos do WhatsApp funcionam menos como espaços de circulação de jornalismo tradicional e mais como pontos de redistribuição de conteúdos produzidos nas próprias plataformas digitais. 83,8% dos links compartilhados nos grupos têm origem em mídias sociais, enquanto a imprensa tradicional representa apenas 0,5% das fontes identificadas.

Entre as plataformas mais compartilhadas, o Instagram lidera, com 38,9% dos links, seguido por YouTube (19,8%) e Facebook (15,6%). O Instagram aparece com mais força nos grupos de esquerda, representando 47,9% dos links, enquanto o YouTube tem maior presença nos grupos de direita, com 23,8%.

A política domina essa circulação: 58,4% dos links analisados têm política ou eleições como tema principal. Segurança e criminalidade aparecem em 10,5% dos conteúdos e economia em 6,1%. 

Quando a mensagem quer convencer

A pesquisa investigou não apenas como os conteúdos são construídos, mas quais efeitos podem produzir. A função mais frequente foi a de formação de opinião, presente em 77,1% das mensagens, seguida por influência eleitoral (47,6%) e desconfiança das instituições (33,5%). Intolerância aparece em 20,4%, radicalismo em 5,4% e pânico em 3,8%. As funções não são mutuamente excludentes e podem aparecer simultaneamente em uma mesma mensagem. 

Os dados indicam, portanto, que a circulação de conteúdos potencialmente desinformativos no WhatsApp não se limita à disseminação de afirmações falsas. Ela também envolve estratégias de enquadramento, mobilização emocional e disputa por percepções políticas, especialmente em um período de preparação para as eleições.

A pesquisa “Caiu no Zap” integra a agenda do Aláfia Lab sobre desinformação em aplicativos de mensageria e dá continuidade ao estudo Abaixo do Radar: Desinformação em grupos de extrema direita no WhatsApp e no Telegram nas eleições de 2024. O novo levantamento amplia o olhar para grupos de diferentes orientações políticas e busca compreender as dinâmicas de circulação de conteúdos no período pré-eleitoral de 2026.

Diferenças entre esquerda e direita

Apesar de compartilharem alguns recursos, os conteúdos que circulam nos grupos de esquerda e direita apresentam diferenças importantes. O apelo emocional aparece em proporções semelhantes: 65,4% nas mensagens da esquerda e 64,7% nas da direita. O mesmo ocorre com o maniqueísmo, presente em 34% e 32,1%, respectivamente.

Outros indicativos, porém, são mais frequentes nos grupos de direita. O enviesamento aparece em 48,3% das mensagens da direita, contra 17% na esquerda. As incorreções foram identificadas em 30,6% dos conteúdos da direita e 2% dos da esquerda, enquanto o negacionismo aparece em 23% e 0,4%, respectivamente.

Também há diferenças nas funções atribuídas aos conteúdos. A função de opinião é predominante nos dois espectros, presente em 84% das mensagens de esquerda e 71,1% das de direita. Já a intolerância aparece em 30,4% dos conteúdos de direita e em 8,8% dos de esquerda. A função de radicalismo foi identificada em 10,1% das mensagens de direita e não apareceu na amostra de esquerda