Racismo digital é ignorado no debate sobre segurança infantil na internet

UOL Notícias | 2025

A recente aprovação da lei que amplia a proteção de crianças e adolescentes na internet reacendeu um debate necessário sobre os riscos que o ambiente digital representa para os mais jovens.

A proposta, já aprovada pela Câmara e pelo Senado e que aguarda sanção do presidente Lula, cria um conjunto de regras jurídicas para as big techs com o objetivo de tornar a internet um ambiente mais protegido para menores de até 16 anos.

A adultização, a sexualização precoce e a pedofilia ganharam espaço nas discussões públicas. Mas há um elemento que segue relegado a segundo plano: o racismo.

Uma pesquisa recém-lançada pelo Aláfia Lab, intitulada “Brasil, mostra sua cara: retrato das vítimas de racismo online e o anonimato de seus agressores”, revela que o racismo digital não apenas persiste como cresce de forma alarmante.

O estudo analisou dados de denúncias registradas no Disque Direitos Humanos (Disque 100) entre 2011 e 2025 e encontrou um aumento vertiginoso: só em 2024 foram 452 casos reportados, o maior volume da série histórica.

Entre os grupos mais vulneráveis estão as mulheres e os menores de idade. Já a maior parte dos suspeitos têm entre 25 e 40 anos.

Das vítimas que declararam gênero e idade, as mulheres concentram 61% dos registros, já a violência contra crianças e adolescentes aparece em 11% dos registros. Isso reforça que o racismo, especialmente online, não atua de forma isolada, mas frequentemente se entrelaça com outras formas de opressão estrutural, como a misoginia e a violência infantil.

A violência doméstica representa quase 10% dos casos, indicando que as agressões também vêm de pessoas com quem as vítimas mantêm vínculos afetivos.

“Percebemos um crescimento vertiginoso do racismo digital, com uma naturalização dessas práticas. As pessoas se sentem à vontade para proferir discursos racistas nos ambientes digitais com consequências graves, como retração psicológica, insegurança e ataque à autoestima das pessoas negras”, afirma Letícia Alcântara, jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal da Bahia e pesquisadora responsável pelo estudo.

Segundo ela, o crescimento das denúncias pode ser lido sob dois ângulos: o aumento real do discurso de ódio na sociedade, potencializado pelo anonimato online e pela omissão das plataformas digitais e, por outro lado, o engajamento maior de pessoas negras em debates potencializados pela própria internet, tornando as pessoas mais conscientes em denunciar e buscar justiça.

“Porém, vemos que os outros debates sobre riscos da internet ganham mais visibilidade. O racismo acaba sendo diluído entre os crimes de ódio na internet”, critica.

Crianças sem possibilidade de defesa

Letícia Alcântara explica que as denúncias revelam a desumanização das pessoas negras, muitas vezes de forma abstrata ou codificada. “Para as ofensas são utilizados ícones como emoji de banana, de macaco, memes etc. O que torna ainda mais difícil a identificação se não estiver atento e contextualizado com essas temáticas, porque há todo um mascaramento”.

Os dados chamam a atenção para o fato de os ataques a crianças e adolescentes serem feitos por adultos. “Se fala muito sobre adultização e sexualização nas redes, mas pouco sobre o racismo que essas crianças sofrem e que impacta profundamente em sua formação”, alerta Alcântara.

A pesquisadora reforça que o ambiente digital não é um espaço separado da vida social, mas sua extensão. “Há um contínuo digital que nos atravessa o tempo inteiro, mesmo que você não se diga conectado. O que se precisa é o controle do uso excessivo e da autonomia para que crianças e adolescentes tenham uma experiência mais saudável online”, defende.

Para ela, a lei aprovada é um passo importante, por aumentar a responsabilização das plataformas digitais, mas será insuficiente se o racismo não entrar no centro do debate sobre proteção digital.

Outro ponto levantado é a necessidade de maior preparo do sistema de justiça. “Quem opera nesse sistema precisa estar bem informado sobre a gravidade do racismo e preparado para julgar esses crimes. Hoje, muitos se escondem atrás da ideia da piada ou da liberdade de expressão, mas no Brasil racismo é crime tipificado, inafiançável”, enfatiza.

A pesquisa sugere aprimorar os canais de denúncia e influenciar as políticas públicas. Mais que isso: escancara como o racismo, ainda que muitas vezes disfarçado em memes, emojis e códigos, continua a ofender, ferir e excluir pessoas, sejam online ou offline.

Se queremos uma internet mais segura para todas as pessoas, em especial para as crianças, precisamos discutir como construir uma internet sem racismo, um ambiente mais protegido para todas as infâncias.