25 abr EntreVistas: juventudes periféricas e os desafios da informação no Brasil
O Aláfia Lab, em parceria com a S19 – Associação 19 de Setembro, lançou a pesquisa EntreVistas: percepções das juventudes periféricas de Belém, Natal e São Paulo na era da (des)informação. O estudo analisa como jovens das classes C, D e E se informam, interpretam o cenário atual e se relacionam com temas como desinformação, educação midiática e inteligência artificial.
A pesquisa considera que o ambiente informacional é marcado por desigualdades e as formas de acesso e contratos de confiança variam de acordo com fatores sociais, econômicos e territoriais. A escuta de jovens periféricos permite compreender essas dinâmicas a partir de suas próprias experiências e contextos.
Com abordagem quali-quantitativa, o estudo combinou a condução de grupos focais e uma pesquisa de opinião com mais de 500 jovens. Um dos destaques do processo foi a participação direta de estudantes de cursinhos populares de Natal, Belém e São Paulo, que contribuíram na formulação das perguntas, na construção metodológica e na análise dos resultados.
O que traz a pesquisa?
Entre os principais achados, destaca-se o papel central das redes sociais e aplicativos de mensagem como principal porta de entrada para a informação. No campo político, esse ecossistema informacional revela uma dinâmica híbrida: os dados indicam que a mídia tradicional (28%) e as redes sociais (25%) figuram entre as principais fontes de informação para os jovens, ao lado da busca ativa por informações sobre candidatos durante os períodos eleitorais (25%).
Ao mesmo tempo, a pesquisa aprofunda a forma como essas juventudes compreendem o fenômeno da desinformação. Os dados indicam um alto grau de familiaridade com o tema: a cada dez jovens, oito afirmam já ter ouvido falar tanto em “fake news” quanto em “desinformação”, enquanto apenas 7% dizem nunca ter se deparado com nenhuma dessas expressões.
Observa-se, contudo, uma assimetria relevante no vocabulário: o termo “fake news” apresenta maior reconhecimento e circulação entre os jovens, evidenciando não apenas sua popularização, mas possíveis limitações na compreensão mais ampla e conceitual do fenômeno da desinformação.
A pesquisa também se debruça sobre como os jovens compreendem o impacto da desinformação e quais são as suas reações quando se deparam com conteúdos enganosos no ambiente online. A reação mais frequente entre os jovens é procurar verificar a informação (48%), seguida de denunciar à plataforma (28%) e bloquear o perfil (24%). No campo do enfrentamento à desinformação, 25% dos entrevistados dizem que a melhor forma de combate é a criação de leis mais rígidas para quem dissemina conteúdos falsos, enquanto 20% apontam para a necessidade de ações de educação e conscientização como melhor saída.
O relatório ainda reúne dados qualitativos, com análises e reflexões da juventude sobre o tema que contribuem para o debate sobre informação, juventude e democracia no Brasil, com foco nas realidades de territórios periféricos.
Pesquisa e formação
A publicação do relatório de pesquisa é a parte final de um processo maior que envolveu a formação de 15 jovens de cursinhos populares em Natal, Belém e São Paulo. Ao longo de cinco meses, os jovens participaram de momentos para que se tornassem multiplicadores no combate à desinformação e elaboração de pesquisa científica. Assim, o Aláfia Lab realizou 16 encontros online com aulas/oficinas sobre plataformas digitais, desinformação e inteligência artificial, além de formações sobre pesquisa científica, incluindo formulação de perguntas de pesquisa, hipóteses e métodos quantitativos e qualitativos.
Cartilha de educação midiática
A partir da pesquisa, o projeto também produziu uma cartilha que reúne os principais achados do relatório, bem como informações sobre o projeto Entre Vistas. Ao final, o documento também traz orientações práticas para ações de educação midiática com jovens.